|
Prevenção da Pneumonia Associada à Ventilação Mecânica
 05/08/2011 14:53  patricia  435 Global
Prevenção da Pneumonia Associada à Ventilação Mecânica
Rev Port Med Int 2010; 17(1)
61
Como eu, Enfermeiro, faço
Prevenção da Pneumonia Associada à Ventilação Mecânica
Nursing protocol
–VAP Prevention
Matos, A*; Sobral, A**
Enfermeiros do Serviço Medicina Intensiva, Hospital São João
RESUMO
A pneumonia associada à ventilação mecânica
é uma das mais frequentes causas de infecção
nosocomial nos Cuidados Intensivos,
resultando numa elevada morbilidade,
mortalidade e elevados custos de saúde
1.
Com este artigo, pretendemos alertar para
esta realidade, para os múltiplos riscos a que o
doente está exposto, para a importância das
intervenções de enfermagem nesta área
específica, fazer uma reflexão sobre a nossa
prática diária e dar conhecimento da
experiência adquirida no nosso quotidiano, ao
longo de 8 e 11 anos de trabalho, em duas
Unidades de Cuidados Intensivos Polivalentes,
do Hospital de São João, EPE .
Palavras-chave:
pneumonia associada à
ventilação, infecção nosocomial, guidelines,
bundles.
Correspondência:
Artur Matos
Hospital São JoãoPortugal
Email: marianaeartur@gmail.pt
A BSTRACT
Ventilator-associated pneumonia is one of the
most frequent causes of Intensive Care
nosocomial infection, resulting in high
morbidity, mortality and health-care costs1.
With this article we aim to alert to this reality, to
the multiple risks that the patient is exposed to,
to the importance of nursing interventions in
this specific area as well as to reflect on our
daily practice and share knowledge regarding
our experience acquired over 8 and 11 years
of work in two Intensive Care Units in the
Hospital São João, EPE (Public Corporation).
Key words:
ventilator-associated pneumonia,
nosocomial infection, guidelines, bundles.
I
NTRODUÇÃO
A infecção nosocomial afecta a nível mundial,
estima-se, cerca de 1.4 milhões de doentes
1.
A taxa de infecção é um dos
indicadores/índices de avaliação da qualidade
hospitalar
2.
A pneumonia nosocomial, incluindo a
pneumonia associada à ventilação (PAV), é
considerada a infecção hospitalar mais
frequente, resultando numa alta morbilidade,
mortalidade e elevados custos de cuidados de
saúde
1.
Como autores deste artigo, e enquanto
Enfermeiros a trabalhar em diferentes
Unidades de Cuidados Intensivos Polivalentes,
do Serviço de Medicina Intensiva (SMI), do
Hospital de São João, EPE, pretendemos
sensibilizar todos aqueles que contactam com
esta problemática, relembrar as guidelines do
Center for Disease Control and Prevention
(CDC), e fazer uma reflexão sobre a nossa
prática diária, salientando a importância das
intervenções de enfermagem como uma
estratégia na prevenção da PAV.
A ventilação mecânica, através do uso de uma
via aérea artificial, é provavelmente o
procedimento mais frequente em doentes
críticos, com insuficiência respiratória.
A PAV desenvolve-se após 48 horas de
entubação traqueal (ET) e ventilação
mecânica
3.
A presença de uma via aérea artificial provoca
alterações dos mecanismos protectores da via
aérea, favorecendo a colonização por
microrganismos.
Rev Port Med Int 2010; 17(1)
62
As vias aéreas artificiais contribuem para a
PAV porque:
- estabelecem um acesso directo às vias
aéreas inferiores;
- diminuem as defesas locais, pela
interferência no mecanismo da tosse;
- promovem a disfunção mucociliar;
- o doente fica incapaz de prevenir a
aspiração;
- actuam como reservatório do crescimento
bacteriano;
- produzem inflamação das vias aéreas,
promovendo a sua colonização;
- provocam lesão do epitélio da traqueia
4.
São factores de risco da PAV: a manipulação
do equipamento ventilatório; sedação;
reentubações; presença de sondas gástricas;
pressão inadequada do cuff; contaminação
oral, para além dos factores gerais como por
exemplo, doença subjacente e a extrema
idade
5.
A PAV é uma preocupante infecção
nosocomial que ocorre em cerca de 30% dos
doentes com ventilação mecânica. A sua taxa
de mortalidade varia entre 20% e 70%
6-7,
variabilidade esta que se explica pela
subjectividade dos conceitos de critério de
diagnóstico
7.
A implementação de protocolos de prevenção
da PAV tem mostrado que a ocorrência deste
tipo de infecção pode ser reduzida
significativamente, sendo referidas taxas de
50% ou mais
8. Os protocolos de prevenção da
PAV têm como objectivo minimizar a sua
ocorrência, em doentes expostos aos factores
de risco, definindo normas de procedimento
baseadas na evidência das melhores
práticas
1.
ESTRATÉGIAS DE PREVENÇÃO
O CDC1 investigou e criou guidelines para
minorar ou eliminar os riscos de
desenvolvimento da PAV a que os doentes se
encontram expostos.
Estruturaram o seu trabalho por categorias, de
acordo com a evidência científica e com o
suporte teórico, usando um código
diferenciador da importância dos
procedimentos, a seguir descriminados:
IA
– Fortemente recomendado baseado em
estudos científicos e epidemiológicos.
IB
– Fortemente recomendado por alguns
estudos epidemiológicos e forte suporte
teórico.
IC – Aplicação recomendada por organismos
do Estado.
II
– Sugerido para implementação, baseado
em alguns estudos epidemiológicos,
sugestivos de ser boa prática mas com um
suporte teórico muito bom.
Não resolvido (NR)
– Pouco evidente na
prática ou sem consenso acerca da sua
eficácia.
GUIDELINES
Na literatura, muitas destas estratégias de
prevenção que vamos apresentar têm sido
agrupadas em bundles que reúnem as
medidas com maior evidência na diminuição
da PAV.
Seleccionamos, das recomendações referidas
da literatura, as que nos parecem mais
relevantes para a prática.
1. M EDIDAS GERAIS:
-
Formação e informação dada à equipa
prestadora de cuidados, sobre prevenção da
PAV e cumprimento das medidas gerais de
controlo de infecção (IA).
- Avaliar diariamente condições para
ventilação espontânea e usar protocolos de
desmame ventilatório.
- Evitar sedação excessiva, avaliando
diariamente a possibilidade de a diminuir.
- Diminuir a exposição aos dispositivos
invasivos:
usar ventilação não invasiva (VNI)
sempre que possível
9;
evitar extubações acidentais e
reentubações (II).
DMINUIÇÃO DA TRANSMISSÃO DE
MICRORGANISMOS DURANTE OS CUIDADOS
PRESTADOS AOS
DOENTES COM ENTUBAÇÃO:
A. Diminuição de transmissão de
microrganismos aos doentes pelos
profissionais
- Higienização das mãos: antes e após o
contacto com os doentes (IA).
- Lavagem das mãos: após contacto com
membranas mucosas, secreções respiratórias,
e antes e após o contacto com qualquer
dispositivo respiratório (IA).
- Luvas: na manipulação de secreções
respiratórias ou de objectos contaminados,
seguido de lavagem das mãos ou se o doente
estiver em isolamento de contacto (IB).
- Bata: quando se antevê a conspurcação com
secreções respiratórias, ou se o doente estiver
em isolamento de contacto.
- Luvas e bata: sempre que o doente tenha
indicação para isolamento de contacto.
- Máscara: durante a aspiração de secreções
com circuito aberto.
B
. Diminuição da contaminação associada
à manipulação do tubo traqueal
- Aspiração de secreções das vias
respiratórias: com sistema aberto, usar luvas
esterilizadas, sondas esterilizadas de uso
único e manter técnica asséptica.
com sistema fechado, usar luvas limpas e
mudar o sistema de aspiração fechado
diariamente (usar sistema fechado se
o doente
Rev Port Med Int 2010; 17(1)
63
estiver infectado com microrganismo
multirresistente ou se tiver tuberculose
pulmonar).
- Usar técnica asséptica na realização e
manipulação da traqueostomia.
- Substituição dos humidificadores heat
moisture exchangers (HME) a cada 48 horas,
se sujos ou disfuncionantes (II).
- Na manipulação e posicionamento do circuito
ventilatório: rejeitar e evitar a drenagem do
fluido condensado para o doente (IB);
substituir as traqueias do
ventilador apenas quando necessário (sujas
ou não funcionantes) (IA).
- Dispositivos respiratórios reutilizáveis:
esterilizar quando usadas em diferentes
doentes (IB);
lavar e desinfectar entre tratamentos no
mesmo doente.
- Na terapêutica inalatória, usar solutos
estéreis e manter assepsia na preparação.
C. Estratégias para prevenção da aspiração
- Usar pressão do cuff adequada
(recomendado ser inferior a 20 cmH2O)1.
- Aspirar as secreções acima do cuff: antes de
mobilizar/transportar o doente e desinsuflar o
cuff (II).
- Usar tubos endotraqueais com aspiração
subglótica (II).
- Prevenção da aspiração associada à nutrição
entérica:
elevar a cabeceira do leito entre 30º-
45º;
verificar o posicionamento e a
permeabilidade da sonda de nutrição (IB);
monitorizar resíduo gástrico;
colocar sonda pós-pilórica se
necessário (NR).
D. Diminuição da Colonização do Tracto
Aerodigestivo
- Preferir a entubação orotraqueal à
nasotraqueal (IB).
- Higienização oral (II) cada 2h-4h previamente
às mobilizações major e seguido de aspiração
de secreções da hipofaringe:
escovar os dentes e a língua cada 12
horas;
aplicar anti-séptico (preferencialmente
com solução de clorhexidina) na cavidade oral
cada 2h-4h;
inspecção da cavidade oral;
aplicar emoliente conforme as
necessidades do doente.
Muitas destas recomendações têm sido
agrupadas em bundles de prevenção da PAV.
Têm sido publicadas diferentes bundles, de
tratamento para a prevenção da PAV, que por
vezes se tornam confusas para os
profissionais.
Recentemente foi publicada uma bundle
europeia, de prevenção da PAV,
seleccionando das estratégias referidas as que
um grupo de peritos considerou terem maior
exequibilidade e impacto na prevenção
baseada na evidência, que são:
não substituir os circuitos ventilatórios
excepto quando indicado;
higiene das mãos com solução
alcoólica;
formação específica da equipa
prestadora de cuidados sobre a prevenção da
PAV;
implementar protocolos de desmame
de sedação;
cuidados de higiene orais com
clorhexidina10 .
Das múltiplas estratégias de prevenção da
PAV, muitas delas já hoje as aplicamos nos
cuidados prestados aos doentes nas Unidades
de Cuidados Intensivos (UCI) em que
trabalhamos.
Verificamos contudo que, em algumas
situações, elas não estão presentes, ou por
falta de informação dos profissionais, ou
mesmo pelos meios técnicos disponíveis não
serem os mais adequados à sua execução. A
prevenção da infecção nosocomial, pelos
profissionais de saúde presentes nas nossas
unidades, é uma das suas preocupações e em
especial por parte dos Enfermeiros. A PAV
pode resultar da actuação directa das suas
intervenções, como os posicionamentos ou a
aspiração de secreções que expõem o doente
a riscos.
Nas nossas Unidades o uso de barreiras de
contacto é cumprido integralmente pelos
profissionais na prestação de cuidados aos
doentes. Todas as camas têm junto de si uma
solução alcoólica para que, de um modo
prático e rápido, as mãos possam ser
higienizadas.
Todos os equipamentos passíveis de ser
esterilizados, como o caso de circuito
ventilatório de alguns ventiladores, ou peças
internas amovíveis dos ventiladores são
sempre pré-esterilizados, na mudança de um
doente para outro e armazenadas num local
limpo e seco1. Por norma, neste momento, os
circuitos ventilatórios só são substituídos
quando se encontram danificados,
visivelmente sujos, contaminados, ou na alta
do doente
1.
Os insufladores manuais, assim como a sua
válvula, são mudados apenas se se
encontrarem visivelmente sujos, não
funcionantes, sofreram contaminação, ou
quando o doente tem alta1. Durante o intervalo
de tempo em que o doente não é aspirado, o
insuflador manual fica guardado junto da
unidade do doente; a sua válvula é protegida
por um invólucro limpo.
Os HME são humidificadores do ar e
permutadores de calor e são substituídos a
cada 24 horas, como o fabricante recomenda,
ou se visivelmente sujos.
Rev Port Med Int 2010; 17(1)
64
O posicionamento correcto dos circuitos
ventilatórios contribui para que os fluidos de
condensação não sejam reintroduzidos
novamente no doente. Sempre que possível
são colocados num plano inferior ao tubo
endotraqueal (TET) do doente, para que a
drenagem se faça sempre no sentido exterior.
Os fluidos de condensação são drenados e
eliminados pelo Enfermeiro, desconectando o
circuito e eliminando os fluidos, usando bata,
máscara e luvas limpas para esta manobra
1-11.
Para potenciar o correcto posicionamento dos
dispositivos traqueais, torna-se de extrema
importância a existência de braços de suporte
para o circuito ventilatório. Esta medida nem
sempre é assegurada, muitas vezes por
deterioração do equipamento de suporte das
|