AUTOR
Euclides F. de A. Cavalcanti
Médico Colaborador da Disciplina de Clínica Médica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP
Checklist baseado nas recomendações da OMS reduz a morbidade e mortalidade pós-operatória.
Um Checklist de segurança cirúrgico para reduzir a morbidade e mortalidade em uma população global.
A Surgical Safety Checklist to Reduce Morbidity and Mortality in a Global Population. N Engl J Med 2009;360:491-9. [Link Livre para o Artigo Original]
Fator de impacto da revista (New England Journal of Medicine): 52,589
Contexto Clínico
Os procedimentos cirúrgicos tem se tornado cada vez mais freqüentes, e se associam a morbidade e mortalidade significativos. Estima-se que a mortalidade associada aos procedimentos esteja entre 0,4 e 0,8% e a incidência de complicações entre 3 e 17% dos procedimentos, números que podem variar de acordo com o serviço e complexidade dos procedimentos2,3. Além disso, dados sugerem que pelo menos metade das complicações relacionadas aos procedimentos podem ser prevenidas2,3, o que levou a organização mundial de saúde (OMS) a publicar diretrizes para assegurar a segurança dos pacientes cirúrgicos ao redor do mundo4.
O Estudo
Baseando-se nas diretrizes da OMS, os autores do estudo desenvolveram um checklist de 19 itens formulado para ser aplicável mundialmente e que pudesse reduzir as principais complicações cirúrgicas. Os autores avaliaram a incidência de complicações e de mortalidade pós-operatórias em oito cidades de diferentes países, sendo que 3733 pacientes consecutivos foram avaliados prospectivamente antes da introdução deste checklist e 3955 pacientes consecutivos foram avaliados após a introdução do checklist.
A tabela 1 contém os principais elementos do checklist.
Tabela 1: Checklist de segurança cirúrgico baseado nas recomendações da OMS
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Admissão (sign in):
Antes da indução anestésica, os membros da equipe (no mínimo a enfermeira e o anestesista) confirmam oralmente que:
1. O paciente verificou a sua identidade, o sítio cirúrgico, o procedimento e deu o consentimento.
2. O sítio cirúrgico está marcado ou a marcação do sítio não é aplicável.
3. O oxímetro de pulso está ligado e funcionando.
4. Todos os membros da equipe estão cientes se o paciente tem alguma alergia conhecida.
5. A via aérea e o risco de aspiração foram avaliados e o equipamento apropriado e assistência estão disponíveis.
6. Se houver risco de perda sanguínea de pelo menos 500 ml (ou 7 ml/kg em crianças) é necessário acesso venoso apropriado e fluidos de reposição disponíveis.
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Pausa antes do início (time out)
Antes da incisão, toda a equipe (enfermeiras, cirurgiões, anestesistas e outros participantes no cuidado do paciente) verificam oralmente:
7. Todos os membros da equipe foram apresentados e tem o devido papel definido.
8. Confirmação da identidade do paciente, sítio cirúrgico e procedimento.
Revisão de eventos críticos antecipada
9. O cirurgião revisa passos críticos e inesperados, duração da cirurgia e perda sanguínea prevista.
10. A equipe anestésica revisa preocupações relativas ao paciente.
11. Equipe de enfermagem revisa a esterilidade e disponibilidade do equipamento e outras preocupações antecipadas.
12. Confirmação de que os antibióticos profiláticos foram administrados < 60 minutos antes da incisão ou que os antibióticos não são indicados.
13. Confirmação de que todos os exames de imagem do paciente correto estão visíveis na sala cirúrgica.
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Liberação (sign out)
Antes do paciente deixar a sala cirúrgica
14. O enfermeiro revisa os seguintes itens com a equipe:
15. Nome do procedimento realizado
16. Verificação que as agulhas, gazes e instrumentos utilizados estão todos completos (ou não aplicável)
17. Verificação que qualquer fragmento retirado foi identificado corretamente e que inclui o nome do paciente
18. Verificação de outros cuidados com o equipamento necessários
19. O cirurgião, a enfermeira e os anestesistas revisam oralmente as principais preocupações com o cuidado do paciente e com a sua recuperação
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Resultados
A taxa de mortalidade foi de 1,5% antes da introdução do checklist e diminuiu para 0,8% após a introdução do checklist (p = 0,003). Complicações pós-operatórias ocorreram em 11% dos pacientes previamente à introdução do checklist e esta taxa caiu para 7% após a introdução (p<0,001). Os autores concluem que este checklist, se aplicado em uma escala global, teria o potencial de prevenir um grande número de mortes e condições debilitantes.
Aplicações para a Prática Clínica
O estudo avaliou a incidência de mortalidade e complicações pós-operatórias antes e após uma intervenção, e este tipo de estudo está sujeito a viés, que poderia ser menor em um ensaio clínico randomizado. Além disso, não é possível determinar qual o impacto de cada uma das intervenções na diminuição das complicações e da mortalidade, sendo o mecanismo provavelmente multifatorial.
No entanto, apesar destas limitações, o estudo mostrou um resultado muito robusto na diminuição de mortalidade e complicações, através de medidas que não oneram o sistema de saúde, além de ter sido baseado nas diretrizes da OMS e no conhecimento de que grande parte das complicações pós-operatórias pode ser prevenida.
Portanto, é opinião deste editor que este checklist deva ser adotado nas salas cirúrgicas de todo país, recomendando-se a leitura do artigo original e das diretrizes da OMS pelos responsáveis. Novos estudos são aguardados de forma a aprimorar ainda mais intervenções que possam diminuir complicações e a mortalidade relacionada aos procedimentos cirúrgicos.
Bibliografia
1. Haynes AB et al. A Surgical Safety Checklist to Reduce Morbidity and Mortality in a Global Population. N Engl J Med 2009;360:491-9. [Link Livre para o Artigo Original]
2. World Alliance for Patient Safety. WHO guidelines for safe surgery. Geneva: World Health Organization, 2008. [Link Livre para o Documento Original]
3. Gawande AA, Thomas EJ, Zinner MJ, Brennan TA. The incidence and nature of surgical adverse events in Colorado and Utah in 1992. Surgery 1999;126:66-75.
4. Kable AK, Gibberd RW, Spigelman AD. Adverse events in surgical patients in Australia. Int J Qual Health Care 2002;14: 269-76.