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ENFERMEIROS A DIAS
Data 08/07/2012 10:17  Autor Marisa Gomes  Vezes 850  Idioma Portugues
 PARA PENSAR E REFLECTIR

 
Ultimamente muito se tem falado e escrito acerca de questões graves, como a elevada taxa de enfermeiros desempregados (provocada por um excesso de procura e uma oferta condicionada, ou antes, mal distribuída), enfermeiros subcontratados a preços de saldos, vínculos precários, destruição da carreira, etc, etc.

No entanto, ainda não vi, nem ouvi, ninguém falar de algo que na minha opinião, é um dos maiores cancros da enfermagem, mas não só da enfermagem, estende-se a todas as áreas, no entanto sendo eu enfermeira, é da nossa classe que vou falar.

Antes de começar este meu desabafo pessoal, real e na primeira pessoa, quero dizer que isto não é de forma alguma, nenhum julgamento, nenhuma crítica, não é dirigido a ninguém, é apenas uma partilha e espero que sirva para reflectirem e pensarem, tal como eu tive que reflectir e pensar.

Fala-se muito da falta de emprego, eu pergunto se não deveríamos falar antes do “excesso de empregos” que muitos enfermeiros têm. Quantos de nós trabalha apenas num sítio? Quantos de nós fazem apenas as 35 horas semanais? Quantos de nós não trabalha “25 horas por dia”? Não é uma crítica, é uma constatação da realidade, e não adianta virem com paninhos quentes e histórias de moral e etc, porque eu conheço bem a realidade, todos nós conhecemos, vivemos é cada vez mais virados para o nosso umbigo e não nos preocupamos com o colega do lado.

Eu também já trabalhei “25 horas por dia”, e digo 25 de forma irónica, porque apesar de o dia só ter 24 horas, se tivesse mais, mais eu trabalhava.

E para que percebam, nada melhor que contar a minha experiência, que me ia custando a vida, a foto que anexei é real, tirada a 25 de Dezembro de 2005, resolvi partilhar, como forma de alertar, sensibilizar e fazer pensar….

Terminei a minha Licenciatura em Julho de 2004, em Agosto de 2004 iniciei funções na Força Aérea Portuguesa, na BA5 em Monterreal, Leiria, era 2ºSargento, ganhava mais do que ganho agora, tinha uma carga horária de 35 horas semanais, o horário era feito de forma a fazermos tudo seguido e ficarmos com o resto da semana livre, ou seja, fazíamos 48 horas seguidas, e na semana a seguir fazíamos 24, e um fim de semana por mês, ou seja, numa semana que me calhasse entrar na segunda ás 8 da manha, saía na quarta ás 8 da manha e ficava com o resto da semana livre.

Fiz o meu estágio de integração á vida profissional no Centro de Saúde do Lumiar, ficou o bichinho dos Cuidados Continuados, e antes de acabar o ano de 2004, estava a trabalhar nos Cuidados Continuados em regime de acumulação de funções a 19 horas semanais, o que significava que fazia 3 manhas das 9 ás 15 horas, ganhava mais nestas 19 horas do que ganho agora pelo mês inteiro. 

Num espaço de meio ano, trabalhava em dois sítios, mas não fiquei por aqui.

Em Março de 2005 pediram-me para ir fazer umas férias de um colega ao hospital de Arruda dos Vinhos, aceitei, mas não fiquei só as férias, saí em 2008. Era um regime de recibos verdes, sem limite de turnos e o preço á hora era bastante bom, ganhava mais aqui do que somando o da Força Aérea com o do Centro de Saúde.

Num espaço de um ano, trabalhava em 3 sitios, Leiria, Lisboa e Arruda dos Vinhos. VIDA PESSOAL????? Não sabia o que isso era. Cheguei a passar semanas que ia a casa tomar banho e mudar de roupa, passei semanas sem dormir na minha cama, passei semanas sem ver o meu marido.

No dia 25 de Dezembro de 2005, depois de ter feito 48 horas em Leiria, e antes disso outras tantas no hospital, saí do serviço ás 8 da manha para ir passar o almoço de natal com a família, dado que de tarde ainda ia para o hospital fazer tarde e noite, sair de noite e ir para o centro de sáude. Mas o meu almoço terminou as 10 horas da manha, na A1 em Aveiras de Cima. O sono tomou conta de mim, despistei-me, bati no muro de betão e quando acordei tinha um enfermeiro do INEM a olhar para mim. O carro capotou e andou uns largos metros até parar, o resultado está á vista na foto. Saí do carro por mim, estava viva, nem um arranhão, o meu carro, com menos de um ano, era um amontoado de chapa torcida, airbags disparados, vidros partidos, foi rebocado para a sucata. 

Neste dia percebi que a melhor prenda de Natal que tinha tido foi uma segunda oportunidade de viver, passei a acreditar em Deus, ou em algo superior que me tinha dado uma nova oportunidade de viver. Quem viu o carro, não acreditava que quem o conduzia tivesse sobrevivido.

Almoçei com a minha família, e ás 16 horas entrei no Hospital para fazer tarde e noite, não podia faltar, nem consegui trocar, era dia de natal, não me perguntem se estava capaz de trabalhar, não estava, apesar de ter saído do carro pelo meu pé, com o passar do tempo, a marca do cinto de segurança começou a aparecer, tinha o peito negro e mal mexia o pescoço, mas fiz o meu trabalho e de manha, dia 26 de Dezembro, saí do Hospital e fui para o centro de saúde do Lumiar.

Mas esta vida tinha de terminar, ou então, um dia era a minha vida que ia terminar. Em Março de 2006 saí da força aérea, e passei a fazer 35 horas no centro de saúde do Lumiar, mas ainda fiquei a trabalhar no hospital. Em Novembro de 2006, tive a melhor noticia da minha vida, estava grávida, e não podia continuar com aquela vida de loucura, reduzi em muito os turnos no hospital, a Helena nasceu a 26 de Julho de 2007, e em Dezembro de 2007 foi a minha despedida do hospital. 

Desde 2008 que apenas trabalho no centro de saúde do Lumiar, de Segunda a Sexta feiras, das 9 ás 16 horas. Nunca mais adormeci ao volante, nunca mais adormeci num sinal vermelho, nunca mais adormeci na carrinha dos Cuidados Continuados, nunca mais ganhei o que ganhava por mês, mas ganhei qualidade de vida, ganhei uma filha linda, e ganhei tempo para mim, para ela, e para me dedicar á investigação, á formação, para me dedicar aos meus doentes, para me dedicar á Enfermagem.

O dinheiro não é tudo, e é a esta conclusão que eu quero que cheguem, de um momento para o outro, podemos perder tudo, eu perdi coisas que nunca mais vou recuperar, mas nunca perdi uma festa de anos da minha filha, a festa da escolinha, as reuniões, os fins de semana de brincadeira, o natal com ela, e isto queridos colegas, não há dinheiro nenhum que pague.

Marisa Gomes
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